Título: Dias Perfeitos
Autor: Raphael Montes
Nº de Páginas: 280
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2014
Nota: 5/5








Dotado da principal característica de um psicopata: a ausência de sentimentos; desde muito cedo o estudante de medicina, Téo, entendeu que, ainda que contra sua vontade, era necessário aprender a conviver com as pessoas que passavam por sua vida e, em alguns momentos, precisava até mesmo fingir gostar de algumas delas. Téo não consegue entender o riso solto de algumas pessoas e não se emociona com coisas que facilmente as emocionariam.

Mas o início do livro nos mostra que o protagonista não é totalmente insensível, afinal ele sente uma certa afeição por Gertrudes. Seu rosto pálido e sua boca em tons de bege são uma bela visão aos olhos de Téo. Na opinião dele, ela é perfeita. Os dois poderiam ser perfeitos juntos e isso seria tão fofo se Gertrudes não fosse um cadáver que a turma de Téo disseca em suas aulas de anatomia.

Em uma festa, Téo conhece Clarice. Os dois trocam poucas palavras e quando Clarice se despede dele com um selinho, Téo percebe que aquilo só pode ser...amor. A partir daí passamos a conhecer detalhes de uma mente doentia, fria e cruel.

Ela o havia beijado naquele churrasco. Por que parar? Do beijo, furtado e furtivo, ele havia se tornado refém. Não era o invasor, mas o invadido; não queria só desvendar, mas ser desvendado. Ele amava Clarice, admitiu. Precisava ser amado. pág. 30

O livro é narrado em terceira pessoa porém aponta somente o ponto de vista do maluco Téo.
Os níveis de perversidade beiram ao extremo quando Téo mantém Clarice presa, disposto a fazê-la entender que foram feitos um para o outro e que todas as atrocidades que comete contra ela são, na verdade, benéficas e consequentes do amor que sente.

O autor injeta uma boa dose de ironia na história. Se as atitudes do protagonista não fossem tão trágicas, poderiam ser cômicas, tamanho o absurdo das coisas que ele faz de forma tão natural quanto você respira.

O mais incrível e também o que te arranca risadas súbitas em alguns momentos, é a total distorção da realidade pela mente insana de Téo, que tem absoluta convicção de estar agindo corretamente, muitas vezes se sentindo ofendido pela ingratidão de Clarice. Afinal, como ela ousa pensar que só porque ele a mantém sedada pela maior parte dos dias, algemada e amordaçada, ele não a ama? Será que ela não poderia parar de ser egoísta e enxergar que isso sim é o verdadeiro amor?

"Ela fechou os olhos. Enxugou as lágrimas no algodão. Voltou ao banheiro para retirar o batom e retocar a dignidade." 

Eu amo filmes, séries e livros sangrentos e estou acostumada a ver esse tipo de coisa assombrosa. Mesmo assim, a impiedade com que o protagonista age me deixou impressionada. Sinceramente, nunca tinha me sentido tão horrorizada quanto me senti durante algumas passagens desta leitura e não foi a situação em si; o sangue, o sofrimento e etc., mas sim, as origens disso tudo. O que leva um ser humano a cometer uma sequência de atos repugnantemente desumanos e de onde surgem essas ideias macabras e a facilidade de colocá-las em prática? A mente humana é realmente uma incógnita.

É terrível saber que Téo é um personagem absolutamente real. Você pode estar convivendo com uma versão dele sem ao menos desconfiar disso.

Nas últimas dez páginas, quando percebi para onde o final se encaminhava, confesso que fiquei desanimada. O final do livro é realmente frustrante mas totalmente possível dentro de seu contexto. O autor construiu uma história surpreendente, com personagens fortes, empregando a dose certa de drama e ironia/sarcasmo e adicionando uma dose extra de horror. Uma história totalmente impactante que, mesmo não tendo o final que imaginei, mereceu meu reconhecimento e levou para si a minha maior nota.

"Quando um homem tem tanta vergonha de si mesmo e se vê desmascarado, não restam muitos caminhos, Clarice. O suicídio é a única saída." pág. 94



Depois dessa leitura tensa porém, surpreendente, fiquei doida pra ler Suicidas, o primeiro livro de Raphael Montes. Pela característica de escrita do autor, que traz violência crua e sem rodeios, e pelos ótimos comentários que li a respeito, suponho que seja tão bom quanto ou ainda melhor que Dias Perfeitos.

Veja o Página 150 de Dias Perfeitos clicando aqui.


Leia também as resenhas anteriores:
Lola e o Garoto da Casa ao Lado - Stephanie Perkins
Cidades dos Anjos Caídos - Cassandra Clare
A Outra Vida - Susanne Winnacker



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"Somos todos estranhos de um jeito diferente, e isso é normal. E mesmo que exista muita coisa que eu não possa dizer para eles, é bom me sentir parte de um grupo." (Cartas de Amor aos Mortos - Ava Dellaira)

11 comentários:

  1. É um complô da blogosfera contra a minha pessoa, só pode! Todo dia, na minha sessão visita pra comentários, eu vejo pelo menos 1 resenha de Dias Perfeitos, todas elogiando horrores a obra. Eu estou curiosíssima pra ler, mas ao mesmo tempo morrendo de medo. Fico muito impressionada com minhas leituras, acabo sonhando, e nem sempre é legal. rs
    Beijinhos!
    Giulia - Prazer, me chamo Livro

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    Respostas
    1. hahaha
      Leia, Giulia! É um ótimo livro.
      Mas espero, de verdade, que você não sonhe com essa história horrorosa. rs. Seria um baita pesadelo!
      Beijoo

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  2. Oi, Lu!
    Após ler sua resenha, uma súbita paixão adentrou meu coração por este promissor livro!
    Caraca, gosto muito de histórias mórbidas com toques cômicos. Vai entrar pra minha lista de leitura agora mesmo!
    Gostei bastante da capa!
    E ri demais na parte do "cadáver"!
    =D

    http://osdragoesdefogo.blogspot.com/

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  3. Oi Luciana!
    Adorei sua resenha! Não conhecia o livro e pela capa não imaginaria que a história seria cruel assim.
    Gostei da dica!

    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

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  4. É a segunda resenha que leio desse livro, e, estou louca pra lê-lo.
    Resenha perfeita, como sempre me deixou mais impulsiva a comprar.
    aculpaedosleitores.blogspot.com.br

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  5. Outra resenha que leio de "Dias Perfeitos" que está me dando aquela vontade danada de comprar logo o meu exemplar!! Histórias de psicopatas são super interessantes, pois ao mesmo tempo em que os personagens são perturbadores, você não consegue se desgrudar do livro e eu adoro essa contradição! Não é a primeira vez que leio sobre essa "decepção" com o final, mas se ao todo o livro é bom, com certeza a leitura e válida! Adorei a resenha e quero logo o meu exemplar de "Dias Perfeitos"!! hehe Bjs
    Jéssica - http://lereincrivel.blogspot.com.br/

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  6. Lendo ele e desde já concordo com a resenha !
    Excelente resenha bj!
    http://comandoliterario.blogspot.com.br

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  7. Morro de vontade de ler esse livro, sem falar que todos elogiam tanto a obra que é impossível não ficar curiosa.
    Quero MUITO esse livro =o!

    memorias-de-leitura.blogspot.com

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  8. Oi Lu, nossa... você disse tudo que eu quis dizer na minha resenha e não consegui.

    Nossa, sem palavras para esse livro. O Téo, ai, o que falar do Téo, teve vezes em que eu tive vontade de bater nele, e houve momentos em que tive vontade de gargalhar do modo dele de distorcer as coisas a seu favor, e o modo como ele realmente acredita nisso e nos faz acreditar. Teve momentos em que minha vontade foi fechar o livro, porque não conseguia aguentar tanta crueldade.

    Não me decepcionei com o final, realmente não era o que eu esperava. Mas acho que o Raphael soube construir muito bem o final e não imagino como seria se tivesse outro... e nossa, eu simplesmente surtei com a última frase e fiquei imaginando a reação do Téo!!

    Bom, amei sua resenha!! Se quiser dá uma conferida na minha, vou deixar o link. Também estou doida para ler Suicidas agora!!

    Beijinhos,

    Rafaella Lima
    http://vamosfalarlivros.blogspot.com.br/

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  9. AHHHHHHHHHHHHHHHHHHH, eu AMEI a resenha e isso não pode. Abstinencia de livros novos por enquanto. Ai você vai me fazer passar ele na frente da lista de compras ahahuhua

    Beijos
    http://penelopeetelemaco.blogspot.com.br/

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  10. Oioi.
    Eu amei esse livro, Raphael me surpreendeu com seu talento.
    Ao contrário de você, apesar de não acreditar e não desejar aquele final, eu adorei a ousadia do autor,e foi o final que contribuiu pra que eu favoritasse o livro.

    Beijos.
    Leituras da Paty

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